domingo, 12 de fevereiro de 2017

Darcy e o Sambódromo:
Usufruir do bom e do melhor seja normal pra qualquer um


Publico o segundo artigo da série sobre a falta que nos faz  há 20 anos Darcy Ribeiro – as memórias de Trajano Ribeiro, o gaúcho boa-praça que tocava a Riotur quando da inauguração do Sambódromo, a obra mais inacreditável e boicotada que ele e Leonel Brizola tocaram no Rio de Janeiro e que, hoje, não há um mais que conteste. Bem diferente do que se fazia naquele distante 83/84, quando a mídia dizia que não ia ficar pronto e até que ia desmoronar ou tornar o samba inaudível.

Algo que os mais jovens talvez não possam acreditar: a Globo, de ódio, não transmitiu o carnaval carioca e teve de engolir em seco o sucesso da então TV Manchete. Eu estava lá, como auxiliar da então assessora de imprensa de Brizola, Martha Alencar e vi -vimos – a Apoteose sonhada por Darcy , que os burocratas não deixam mais acontecer: depois do desfile da Mangueira, com seu antológico  “Yes, nós temos Braguinha“, o povo desceu da arquibancada e a escola fez um bagunçado “desfile ao contrário”. percorrendo a  Passarela ma “contramão”.

Não sou de carnaval, mas ninguém apaga a emoção daquele dia, na linda passarela que materializava os versos do Gilberto Gil e do Dominguinhos, em que “usufruir do bom, do mel e do melhor seja comum pra qualquer um, seja quem for…”


O carnaval de Darcy Ribeiro

Trajano Ribeiro*
Ninguém como Darcy Ribeiro compreendeu a alma e a cultura do povo brasileiro. Darcy costumava dizer que no Brasil estava nascendo uma nova e fantástica civilização, fruto da mistura de índios, negros, e europeus de diversas nacionalidades como portugueses, holandeses, italianos, alemães, espanhóis, enfim, uma mescla de sangue e cultura que resultou, principalmente na música, em forte influência africana. Assim, quando assumiu a Secretaria de Cultura do Estado do Rio no governo Brizola, identificou logo o carnaval como a principal manifestação cultural do país, especialmente o desfile das escolas de samba, evento cujas raízes remontam a década de 30 do século passado, quando Getúlio Vargas pediu a Villa Lobos que organizasse um desfile carnavalesco.
Preocupado com a organização do carnaval do ano de 1984 e consciente de que o desfile das escolas de samba era sempre objeto de severas críticas da imprensa à sua organização, causando sempre desgaste aos governantes responsáveis, e atento ainda aos altos custos de montagem e desmontagem todo ano das estruturas para o desfile, além do transtorno causado ao trânsito da cidade naquele processso, passou a perseguir a ideia de um local definitivo para a realização dos desfiles, com mínimo impacto sobre a vida da cidade e com uma estrutura definitiva para abrigar desfilantes e público. Nascia assim a Passarela do Samba.
Em reunião na casa do Governador Brizola foi apresentado o projeto oferecido a Darcy pela FEM – Fábrica de Estruturas Metálicas, pertencente a Companhia Siderúrgica Nacional, de uma passarela toda de aço, que contemplava inclusive a exigência do governador para que durante o ano inteiro as instalações se destinassem ao funcionamento de uma escola de ensino integral para milhares de alunos do ensino básico e médio. Ao final da exposição era visível a falta de entusiasmo de Darcy pelo projeto. Fiz então uma observação a respeito do senso estético do povo carioca, que provavelmente não aprovaria uma estrutura tão pesada e sem dúvida contrastante com a beleza da cidade. Darcy arrematou: “vou pedir ao Oscar que faça um projeto para a passarela”. E assim nasceu a passarela, fruto do traço de Niemeyer e do sonho de Darcy Ribeiro. Mas Darcy não se limitou apenas a criar a infraestrutura física para o desfile. Ele, a contragosto das escolas e seus patronos, dividiu a festa em dois dias e criou o sábado das campeãs, ou seja, criou um desfile em três dias. Deve-se a Darcy ter o desfile, hoje, a grandiosidade que ostenta, e graças à sua visão e a seu sonho a criatividade dos carnavalescos ganhou asas e produziu o maior espetáculo da terra.

*Trajano Ribeiro foi secretário de turismo do Estado e do município do Rio do Janeiro e presidente da Turisrio e da Riotur nos governos de Leonel Brizola.

http://www.tijolaco.com.br/blog/darcy-e-o-sambodromo-usufruir-do-bom-do-belo-seja-normal-pra-qualquer-um/